Universidade Minerva – proposta de revolução no ensino superior (Artigo)

artigo publicado no portal da ABMES em 18/8/2015

Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
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As instituições de ensino superior precisam se distanciar da abordagem no sentido do maior e do melhor e adotar um posicionamento em favor de uma nova realidade econômica, focando naquilo que sabem fazer de melhor. (Len Schlesinger[1])

No primeiro semestre do ano passado, a mídia divulgou projeto pioneiro em educação proposto pelo Instituto Minerva (EUA) – a Universidade Minerva – com o propósito de convocar os alunos a colocar suas mochilas nas costas e a vagar pelo mundo para aprimorar o conhecimento e promover incursões visando interiorizar experiências e vivências internacionais. Esta forma de atuação que as universidades “emparedadas” não almejam nem têm condições de propiciar poderão marcar de fato o fim de escolas e faculdades que obedecem a padrões seculares e tradicionais de ensino.

O projeto é do empreendedor Bob Nelson, que pretende renovar o conceito de universidade. A ideia é mesclar encontros presenciais e sistemas de ensino online em diversos países por meio da utilização de uma didática radicalmente nova para “substituir” o modelo da universidade tradicional. Nelson quer provocar uma revolução no ensino superior atuando na elite social. Ele lançou uma estratégia de marketing provocativa com apelos promocionais persuasivos no site do Minerva, quais sejam:

  • Uma educação construída para você – Minerva oferece um ensino de graduação original. A experiência intensiva quatro anos é deliberadamente concebida para melhorar o seu crescimento intelectual e prepará-lo para o sucesso em rápida mutação no contexto do global de hoje.
  • Experiência única. Imersão global O mundo precisa de cidadãos globais com conhecimentos de diversas culturas. Os alunos vão vivenciar experiências vibrantes em até sete das maiores cidades do mundo[2], enquanto obtém acesso a uma riqueza de recursos educacionais muito além daqueles disponíveis em um ambiente de um campus universitário tradicional.

Cada cidade sede do Minerva é selecionada pelo seu significado global, fornecendo vários desafios temáticos para o entendimento cultural mais profundo. Ao contrário da experiência com aulas passivas, a maioria dos alunos do projeto Minerva participará de pequenos seminários. Professores de alto nível envolverão e motivarão os alunos por meio de animada discussão, com debates intensivos e trabalho colaborativo.

Os cursos dividem-se em cinco áreas. Já estão aprovados para entrar em funcionamento os de artes e humanidades, ciências sociais, ciências naturais e ciência da computação. A área de negócios ainda aguarda aprovação. Os cursos – que serão realizados em parceria com o Keck Graduate Institute (KGI), parte de um consórcio de faculdades da Califórnia –  não terão aulas regulares, mas uma série de seminários interativos realizados por meio de um sistema de videoconferência. Em cada seminário, serão reunidos no máximo vinte alunos. O professor pode estar em qualquer lugar do mundo. Basta que tenha acesso à web. Estima-se um investimento de US$ 28.850 por aluno.

Na matéria publicada no Estadão no dia 9 de agosto de 2015 – Cresce procura por novos modelos de ensino superior – Isabela Palhares analisou o projeto Minerva dizendo que cresce a procura por novos modelos de ensino superior com aulas online, campi itinerantes e sistema de workshops como opções para quem deixou para trás a universidade “sonolenta”. Sua análise não trouxe novidade, pois todos enxergam que a universidade tradicional presencial está com os dias contados. A forma de aprender mudou; a academia, porém, ainda não acredita nisto, porque não quer perder o privilégio de ser a “âncora do conhecimento” e o “cartório” de distribuição de diplomas.

Hoje a informação está disponível por um clique e um número indescritível delas encontra-se nas diversas mídias. As redes sociais conectam pessoas que compartilham informações e experiências e trocam informações pessoais e profissionais. O mundo virou uma aldeia global e a instituição universitária não tem mais endereço local. Está no universo do conhecimento. Portanto, a Universidade Minerva é a comprovação de que a sala de aula tradicional com as suas características ultrapassadas já está com os dias contados.

Ao mesmo tempo em que as mudanças econômicas, sociais e tecnológicas ameaçam a universidade tradicional, surgem demandas educacionais em todos os níveis que estão a exigir respostas. Esta é uma realidade incontestável que se apoia nos seguintes fatos:

  • Educação em todos os níveis durante a vida – Diferentemente do passado, quando os requisitos profissionais em nível superior permitiam que as pessoas trabalhassem em empresas por trinta anos e depois se aposentassem, hoje todos sabem que elas passarão em sua vida profissional por várias empresas e atuarão em ocupações muitas vezes diversas de sua formação. Todos estão conscientes de que o aprendizado começa na escola fundamental e que vai até o fim da vida, isto é, que nunca termina.
  • Interligação entre ensino médio e superior – Uma tendência nas escolas americanas é não mais separar as diversas fases do ensino (elementar, médio e superior) e permitir, por exemplo, que um aluno do ensino médio possa antecipar atividades ou disciplinas do superior e obter créditos válidos para a universidade.
  • Interdisciplinaridade valorizada – A interdisciplinaridade será cada vez mais incentivada, para atender à complexidade do mundo. Assim, o estudante deve passar antes por todas as áreas do saber para depois escolher a sua preferida.
  • Concorrência saudável entre instituições – A massificação do ensino superior incentivará a concorrência entre as instituições, levando-as a encontrar as melhores metodologias de aprendizado visando facilitar o trabalho em grupo e melhorar a comunicação entre pares.
  • Flexibilização e ensino híbrido – A flexibilização dos planos curriculares exigirá maior aproximação entre ensino presencial e online. O ensino se tornará híbrido e a estratégia a ser utilizada dependerá do perfil do estudante. O encontro entre o mestre e o aprendiz estará sempre apoiado na solução de problemas.
  • Potencialidade do ensino online – O ensino online se aperfeiçoará cada vez mais e sendo optativo se tornará uma modalidade com grande potencial. Isto porque colaborará para aprofundar o conhecimento e maximizar os recursos oferecidos pelas redes sociais e pelas diferentes mídias.
  • Professor e tecnologias de informação e comunicação – As tecnologias de informação e comunicação servirão cada vez mais de esteio e de aprimoramento para os processos de aprendizagem o que obrigará os seus usuários a dominarem a sua utilização. Nesse contexto, entra o papel do professor como intermediário principal do processo de ensino-aprendizagem.
  • Criatividade, inovação e empreendedorismo: diferencial competitivo – A criatividade, a inovação e o empreendedorismo deverão ser percebidos nos sistemas de ensino como diferenciais competitivos dos indivíduos, visando criar oportunidades agregadoras de valor à formação das novas gerações de estudantes e trabalhadores.

O mundo mudou e a procura por profissionais que possam atender os desafios com os quais as organizações atualmente se defrontam está a exigir uma formação educacional voltada para atender as demandas dos novos tempos.

É preciso vencer o medo e superar o imobilismo de se achar que tudo ficará como está. Quem tiver um pouco de sensibilidade perceberá que o sistema educacional está mudando e que será preciso se adaptar às novas realidades.

 

[1] A universidade inovadora – mudando o DNA do ensino superior de fora para dentro, pag. 340.

[2] Sete cidades escolhidas: primeiro ano – São Francisco (USA); segundo ano – Berlin (Alemanha) e Buenos Aires (Argentina); terceiro ano – Seul (Coreia do Sul) e Bangladesh (Índia) e quarto ano – Istambul (Turquia) e Londres (Inglaterra).

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