A influência da internet é um caminho sem volta

Por Paulo Roberto Junior em 05/05/2015 na edição 849 do Observatório da Imprensa

Misturar jornalismo e internet parece não agradar muitos profissionais de comunicação que – por se sentirem ameaçados ou até mesmo por incompreensão – tacham o ambiente virtual como um espaço improdutivo, cheio de pessoas alienadas e de conteúdos displicentes. Também não é incomum encontrar articulistas que, paradoxalmente, utilizam o próprio blog para criticar a web e discorrer sobre como não podemos confiar em grande parte do que se lê nesse mundo de páginas virtuais. Curiosamente, essas pessoas contabilizam cada curtida, compartilhamento e comentário que recebem, a fim de medir o tamanho de sua audiência e o alcance de suas questionáveis palavras. Enquanto isso, a internet segue mostrando que, em meio ao caos online, o caráter dialógico da comunicação se acentua cada vez mais, criando um ambiente de representação e participação social, no qual a notícia vinda dos veículos passa a ser submetida a debate coletivo.

A tecnologia acessível na palma da mão permite o contato com ondas de compartilhamentos de informações, vídeos e imagens a todo o momento. Em outras palavras, são realidades expostas sem a mediação de jornalistas que definem, por meio de critérios subjetivos, o que é ou não relevante. A partir disso, surge, assim, o contradiscurso da sociedade em relação à cobertura jornalística da imprensa tradicional e às fontes institucionais treinadas para proferirem discursos que visem à manutenção de um status quo político. As manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil, em Junho de 2013, por exemplo, foram um acontecimento social, político e, mais que isso, um acontecimento digital. Ali, todas as fronteiras informativas foram ultrapassadas e instaurou-se uma guerra entre parte da sociedade e a imprensa, ganhando proporções até mesmo violentas.

Em uma breve repetição da história, na última semana, mais de 200 pessoas ficaram feridas durante o protesto dos professores em Curitiba, no Paraná. Boa parte da imprensa se limitou a noticiar o ocorrido como “uma manifestação que terminou em confronto com policiais”. Algumas matérias foram encerradas com a entrevista do governador Beto Richa (PSDB) dizendo que “a presença de baderneiros e arruaceiros que radicalizaram provocaram uma reação natural”. Ou seja, diante das cenas de violência descomunal, a última palavra das reportagens foi de uma fonte oficial dizendo que a ação da polícia foi “natural”. Já na internet, depois da suspeita de diversos internautas sobre a veracidade de uma foto que mostrava um policial coberto de “sangue”, a Polícia Militar do Paraná confirmou, em entrevista à BBC Brasil, que o oficial, na verdade, estava coberto de tinta. Mais uma vez, a web provou que o público já não recebe qualquer informação passivamente e busca agir como coprodutor da notícia.

Jornalismo investigativo sem fins lucrativos

Mas, não foi só isso. O resultado de uma análise amostral com 191.779 mensagens coletadas nas redes sociais sobre o protesto da última semana mostrou que 90,4% das citações foram favoráveis à manifestação dos professores, contra 4,8% de citações em oposição ao movimento. A análise, realizada pela InterAgentes – empresa de comunicação digital –, indicou ainda que a tag do período, #brasilcomosprofessoresdoparana, registrou 27.573 ocorrências.

Os veículos já começaram a sentir os efeitos dessa proeminente era informativa. De acordo com dados do Ibope, o Jornal Nacional registrou, em setembro de 2014, uma média de 19,7 pontos de audiência. Há dez anos, a média de audiência do jornal no mesmo mês foi de 36,8 pontos, ou seja, houve uma queda de 47% na última década. O matinal Bom Dia Brasil perdeu, em dez anos, 40% de seu share. Em 2004, o jornal respondia por 52% dos aparelhos de TV ligados e, em 2014, não passou dos 33%. Para entender a mudança de comportamento do público brasileiro, basta analisar alguns dados divulgados pela pesquisa “Democratização da Mídia”, divulgada em 2013 pelo Núcleo de Estudos e Opinião Pública (NEOP), da Fundação Perseu Abramo: dentro do universo da televisão (jornalismo e entretenimento), 43% das pessoas admitiram não se sentirem representadas nessa mídia e 25% se veem representadas de maneira negativa.

Portanto, com o crescimento das redes sociais, sites, blogs e fóruns, é possível dizer que, em relação ao jornalismo, esse fluxo informativo “permitiu ao leitor entrar em contato com um número cada vez maior de percepções sobre a mesma notícia, o que complicou, sobremaneira, o trabalho dos jornalistas” (CASTILHO, 2005: 248). Dessa forma, “a existência e o desenvolvimento das redes de mass self communication [a intercomunicação individual] oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior organização política” (CASTELLS, 2006).

Essa participação social no processo de produção de notícias já tem experiências bem consolidadas e revela que internet e, consequentemente, redes sociais não são mais ferramentas desassociadas do trabalho jornalístico. Para sobreviver, o jornalismo dependerá, cada vez mais, de projetos inovadores que envolvam as novas tecnologias. A Agência Pública é um exemplo de como a comunicação online está se desenvolvendo rapidamente e experimentando uma produção de conteúdos de maneira mais orgânica com os leitores. Primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos no Brasil, a Pública nasceu após a dificuldade que a jornalista Natalia Viana, fundadora da agência, encontrou para que documentos vazados pelo WikiLeaks, no famoso caso Cablegate, se tornassem matérias nos principais jornais do país.

Uma experiência de resistência

Natalia mantinha um blog com boa repercussão e, quando percebeu que muitos dados não estavam sendo aproveitados pela imprensa, recorreu ao público para saber quais assuntos deveriam ser explorados em meio àquela enxurrada de documentos diplomáticos. Internautas que acompanhavam o blog da jornalista passaram de leitores a editores e, assim, com a ajuda de um time de blogueiros, e sem a colaboração dos jornais, a jornalista divulgou novos dados acerca de políticos brasileiros. Depois, por meio de crowndsourcing, era inaugurada a Agência Pública, referência atualmente em jornalismo independente.

Entrando na esfera do jornalismo comunitário, a tecnologia emerge como ferramenta de denúncia e humanização para moradores de regiões historicamente marcadas pela opressão e pelo desrespeito. Em 2010, com a ocupação do Complexo do Alemão para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no Rio de Janeiro, o jovem morador da comunidade Rene Silva ganhou projeção ao divulgar, pelo Twitter, informações sobre a operação militar. Foi o suficiente para que o portal Voz das Comunidades, que já havia sido criado anteriormente pelo menino de 17 anos, alcançasse enorme visibilidade. Informação que saía de dentro do conjunto de favelas para o mundo, ou seja, literalmente, a voz daquela comunidade.

A página Maré Vive, no Facebook, é mais uma experiência de resistência, que desempenha um papel de divulgadora de uma realidade que nem sempre encontra espaço nos principais jornais e emissoras. Já são quase 30 mil pessoas que acompanham a página e têm contato com o que acontece dentro da favela sob a ótica dos moradores. Outros coletivos trabalham não apenas dentro do Complexo do Alemão e do Complexo da Maré, mas também em diferentes favelas cariocas.

A convergência das mídias e a coparticipação

De olho nesse movimento, o jornalista norte-americano Matthew Shaer resolveu acompanhar o cotidiano de quem vive no conjunto de favelas do Alemão e entrevistar moradores que se transformaram em ativistas ao descobrirem o poder de uma câmera. Intitulada “The Media Doesn’t Care What Happens Here” (A mídia não se importa com o que acontece aqui), a reportagem elaborada para o The New York Times registra, em detalhes, o trabalho de alguns jovens que, apesar das adversidades, expõem o dia a dia de uma região “pacificada”, além de mostrar como esses grupos estão se profissionalizando, com a ajuda de instituições internacionais de direitos humanos, que capacitam e apoiam jornalistas amadores em todo o mundo. Confira a versão traduzida da reportagem do The New York Times.

Como afirma o jornalista Carlos Castilho (2005), é “um processo de consequências imprevisíveis porque permite a incorporação de milhões de pessoas ao fluxo mundial de informações, uma precondição para a participação cidadã em decisões comunitárias e nacionais. (…) Os conceitos de jornalismo-cidadão e de código aberto estão revolucionando o sistema de publicação de conteúdos na web”.

Não se trata de preterir um meio em benefício do outro. Muito menos, trata-se de negar a importância do papel social do jornalista profissional de apurar e informar com qualidade e equidade. Veículos impressos, assim como televisão e rádio, continuarão existindo e comemorarão mais 50, 90 anos de trabalho árduo, realizado cotidianamente. A discussão que se impõe de forma avassaladora é: como será feito esse trabalho? A crise financeira que bate à porta dos veículos – exteriorizada pelo enxugamento das redações e cortes de gastos internos – acena para alterações de formatos e linguagem frente ao novo contexto da sociedade hiperconectada. Essa crítica visa, somente, trazer à tona mecanismos tão enraizados nos modos de produção que até mesmo profissionais de comunicação se veem fechados dentro de uma estrutura engessada e sem a possibilidade de desenvolvimento de ações propositivas.

O futuro está na convergência das mídias e na coparticipação. A comunicação contemporânea exige um ajustamento, e a resistência a essas urgentes mudanças ajuda a empurrar o jornalismo para um cenário de constante instabilidade, tanto para as empresas quanto para os seus funcionários. É preciso aperfeiçoar o fazer jornalístico nos âmbitos teórico e técnico, permitindo, assim, que jornalistas, veículos e público estejam em posição mais horizontalizada na definição de conteúdo. O fluxo de informação está mudando e a cada dia surgem novas ferramentas tecnológicas que contribuem para a evolução crítica da sociedade. E isso é maravilhoso. Daqui para a frente, não gostar da internet não será uma opção. Ou você se adapta, ou o seu trabalho não terá mais sentido.

Referências bibliográficas

CASTELLS, Manuel. (2006) “A era da intercomunicação”. In: biblioteca diplô. Disponível em: http://diplo.org.br/2006-08,a1379 – 01/08/2006

CASTILHO, Carlos. (2005) “Webjornalismo: o que é notícia no mundo on-line”. In: No próximo bloco… O jornalismo brasileiro na TV e na internet. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio / Loyola. p. 231-256

Pesquisa Democratização da Mídia 2013, elaborada pelo Núcleo de Estudos e Opinião Pública (NEOP), da Fundação Perseu Abramo. Disponível em: http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/fpa-pesquisa-democratizacao-da-midia.pdf

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Paulo Roberto Junior é jornalista

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